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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro

sexta-feira, 4 de março de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ainda MAIS presente na Biblioteca Nacional

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andressen

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Eugénio de Andrade

AS PALAVRAS
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

DESPERTAR
É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.

METAMORFOSES DA CASA
Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

OUTRO FRAGMENTO
Entre obscuras sementes a mão recolhe
a luz dos lódãos:
as suas águas são a pedra do crepúsculo.

Entre a festa e a morte
que fizeste da manhã? - pergunta
insiste o vento.

Com um rumor de neve ou de animal
moribundo fiz o anel e a casa:
assim o deserto cresce sobre o coração.

CAVATINA
Obstruído o caminho da transparências
ó me resta reunir os fragmentos do sol nos espelho
se com eles junto ao coração
atravessar indiferente a desordem matinal dos mastros.

Quando mais envelheço mais pueril é a luz
mas essa vai comigo.

FAZ UMA CHAVE...
Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

JÁ NÃO SE VÊ O TRIGO...
Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

O SORRISO
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

domingo, 28 de novembro de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O mestre

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo?

…

Fernando Pessoa

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pour moi (l’aniversariante)

en intégrale
JACQUES BREL
01 - La haine
02 - Grand Jacques (C'est trop facile)
03 - Il pleut Les carreaux
04 - Le diable ça va
05 - Il peut pleuvoir
06 - Il nous faut regarder
07 - Le fou du roi
08 - C'est comme ça va
09 - Sur la place
10 - S'il te faut
11 - La Bastille
12 - Prière païenne
13 - Il y a
14 - La foire
15 - Sur la place

01 - Quand on n'a que l'amour
02 - Qu'avons-nous fait, bonnes gens
03 - Les pieds dans le ruisseau
04 - Pardons
05 - La bourrée du célibataire
06 - L'air de la bêtise
07 - Saint-Pierre
08 - J'en appelle
09 - Heureux
10 - Les blés
11 - Quand on n'a que l'amour

01 - Demain l'on se marie (la chanson des fiancés)
02 - Au printemps
03 - Je ne sais pas
04 - Le colonel
05 - Dors ma mie
06 - La lumière jaillira
07 - Dites, si c'était vrai (poème)
08 - L'homme dans la cité?
09 - Litanies pour un retour
10 - Voici
11 - Voir
12 - L'aventure
13 - Dites, si c'était vrai (poème)

01 - La valse à mille temps
02 - Seul
03 - La dame patronnesse
04 - Je t'aime
05 - Ne me quitte pas
06 - Les Flamandes
07 - Isabelle
08 - La mort
09 - La tendresse
10 - La colombe

01 - Marieke
02 - Le moribond
03 - Vivre debout
04 - On n'oublie rien
05 - Clara
06 - Le prochain amour
07 - L'ivrogne
08 - Les prénoms de Paris
09 - Les singes
10 - Marieke (version flamande)
11 - Laat me niet alleen (ne me quitte pas)
12 - De apen (les singes)
13 - Men vergeet niets
14 - Le prochain amour

01 - Introduction - Les prénoms de Paris
02 - Les bourgeois
03 - Les paumés du petit matin
04 - Les Flamandes
05 - La statue
06 - Zangra
07 - Marieke
08 - Les biches
09 - Madeleine
10 - Les singes
11 - L'ivrogne
12 - La valse à mille temps
13 - Ne me quitte pas
14 - Le moribond
15 - Quand on n'a que l'amour

01 - Les bourgeois
02 - Les paumés du petit matin
03 - Le plat pays
04 - Zangra
05 - Une île
06 - Madeleine
07 - Bruxelles
08 - Chanson sans parole
09 - Les biches
10 - Le Caporal Casse-Pompon
11 - La statue
12 - Rosa
13 - Il neige sur Liège
14 - Pourquoi faut-il que les hommes s'ennuient (du film 'Un roi sans divertissement')

01 - Les bonbons
02 - Les vieux
03 - La parlote
04 - Le dernier repas
05 - Titine
06 - Au suivant
07 - Les Toros
08 - La Fanette
09 - J'aimais
10 - Les filles et les chiens
11 - Les bigotes
12 - Les fenêtres
13 - Quand maman reviendra
14 - Les amants de cœur

01 - Amsterdam
02 - Les timides
03 - Le dernier repas
04 - Les jardins du casino
05 - Les vieux
06 - Les Toros
07 - Tango funèbre
08 - Le plat pays
09 - Les bonbons
10 - Mathilde
11 - Les bigotes
12 - Les bourgeois
13 - Jef
14 - Au suivant
15 - Madeleine

01 - Ces gens-là
02 - Jef
03 - La chanson de Jacky
04 - Les bergers
05 - Le tango funèbre
06 - Fernand
07 - Mathilde
08 - L'âge idiot
09 - Grand-mère
10 - Les désespérés
11 - Mijn vlakke land (Le plat pays)
12 - Rosa (version flamande)
13 - De burgerij (Les bourgeois)
14 - De nuttelozen van de nacht (Les paumés du petit matin)

01 - Mon enfance
02 - Le cheval
03 - Mon père disait
04 - La... La... la
05 - Les cœurs tendres (du film 'Un idiot à Paris')
06 - Fils de....
07 - Les bonbons 67
08 - La chanson des vieux amants
09 - À jeun
10 - Le gaz
11 - Les moutons

01 - J'arrive
02 - Vesoul
03 - L'Ostendaise
04 - Je suis un soir d'été?
05 - Regarde bien, petit
06 - Comment tuer l'amant de sa femme quand on a été élevé comme moi dans la tradition
07 - L'éclusier
08 - Un enfant
09 - La bière
10 - La chanson de Van Horst (du film 'Le bar de la fourche')
11 - L'enfance (du film 'Le Far West')

01 - L'homme de la Mancha
02 - Un animal
03 - Dulcinéa
04 - Vraiment je ne pense qu'à lui
05 - Le casque d'or de Mambrino
06 - Chacun sa Dulcinéa
07 - Pourquoi fait-il toutes ces choses
08 - La quête
09 - Sans amour
10 - Gloria
11 - Aldonza
12 - Le chevalier aux miroirs
13 - La mort

01 - Ne me quitte pas
02 - Marieke
03 - On n'oublie rien
04 - Les Flamandes
05 - Les prénoms de Paris
06 - Quand on n'a que l'amour
07 - Les biches
08 - Le prochain amour
09 - Le moribond
10 - La valse à mille temps
11 - Je ne sais pas

01 - Jaurès
02 - La ville s'endormait
03 - Vieillir
04 - Le bon Dieu
05 - Les F...
06 - Orly
07 - Les remparts de Varsovie
08 - Voir un ami pleurer
09 - Knokke-le-Zoute Tango
10 - Jojo
11 - Le lion
12 - Les Marquises
13 - Sans exigences
14 - Avec élégance
15 - Mai 40
16 - L'amour est mort
17 - La cathédrale

01 - À deux
02 - Dites, si c'était vrai (poème)
03 - Les gens
04 - La haine
05 - Départs
06 - Le diable 'ça va'
07 - Qu'avons nous fait, bonnes gens
08 - L'ange déchu
09 - Les pieds dans le ruisseau
10 - La Bastille
11 - Ce qu'il nous faut (ce qu'il vous faut)
12 - L'accordéon de la vie
13 - Je suis l'ombre des chansons
14 - S'il te faut
15 - Ballade
16 - L'orage
17 - Les pavés
18 - Le fou du roi
19 - La foire
20 - Sur la place
21 - Il peut pleuvoir
22 - Les deux fauteuils
23 - Les enfants du roi
24 - Le troubadour
25 - Il nous faut regarder
26 - C'est comme ça
27 - Si tu revenais
28 - Le pendu

merci

segunda-feira, 21 de junho de 2010

«Ó sino da minha aldeia»

Ficções do Interlúdio
1914-1935
Fernando Pessoa

domingo, 2 de maio de 2010

Eugénio de Andrade

Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não?

CANÇÃO

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Uma coincidência na minha vida. Entre outros tantos 5 poemas e a música dele – uma boa combinação:

Com a tua placenta
quieta

ficas aí
apenas como quem escuta

as flores a crescerem-te
pelo avesso
da fala

*****

A toalha ensanguentada
da tua
mestruação

Memória acordada
- poisada –
a um canto do quarto

*****

Tens os olhos brancos
da memória

os olhos
brandos

debruçados nos narcisos
das águas interiores

*****

Que mulheres
(estas)
que bordam como se fossem rosas

orgasmos

a ponto – pé de flor
no clítoris?

*****

Como voltar ao colo, aos seios, ao leite onde encontro o equilíbrio.
O refúgio?

*****

Cheiravas súbito
a plantas

vaginais…

Maria Teresa Horta



Martinho da Vila

Óscar (do bom conhecimento)
- ao dia em que entrei na livraria Bertrand e escolhi o livro de Maria Teresa Horta,
- ao Alípio que me fez ouvir Martinho da Vila.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sentimento dos dias

Um pequeno lugar onde se pode ouvir a música
o vento o mar as conjugações astrais
um pequeno lugar do mundo onde à noite se sabe
que tudo é como as luzes que cintilam
um breve instante
e nada mais.

Manuel Alegre

sexta-feira, 2 de abril de 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

Para onde vamos?

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – nada mais!

O Palácio da Ventura de Antero de Quental

terça-feira, 23 de março de 2010

Tempos de poesia I: fui e não fui

Quando as crianças brincam
Eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração.

Fernando Pessoa

domingo, 7 de março de 2010

Andrade

O corpo queixa-se por instantes, agosto amarga. Já quase ao crepúsculo procuras a casa, sempre quiseste saber se a profusão do silêncio era habitável. Era, mas só na extremidade.